quarta-feira, 9 de julho de 2008

Fomes: História e Classificação. Prática do Canibalismo



Ao analisarmos a história da alimentação e da nutrição não podemos deixar de tecer algumas considerações a respeito da fome, conceituada como a manifestação cenestésica, orgânica e psíquica da vida em perigo por falta de alimentos. Sua sensação é o sinal de alarme do organismo.
O termo fome existe em todo os idiomas e sua importância transcende o fato biológico da fome individual até o processo psicopatológico da loucura por inanição, ao fenômeno e ao drama social da miséria coletiva.
Varias são as causas desse fenômeno que pode ter diferentes formas segundo sua origem, grau e duração. Waldorf classifica a fome em dois tipos: naturais e artificiais. Entre as primeiras figuram as fomes provocadas pelos fenômenos da natureza ( seca, enchentes, geleiras, etç..), enquanto as fomes artificiais são as decorrentes das guerras e de fatores econômico-sociais, bem como as decorrentes da ação predatória do homem ( destruição de florestas, poluição ambiental, etç.).
Morgulis distingue três formas de fome: fisiológica ( a normal), patológica ( a que traz transtornos funcionais e orgânicos) e subalimentação experimental completa ou parcial ( induzida para fins de estudo).
Quanto à sua continuidade e tempo de aparecimento, a fome pode ser classificada em aguda e crônica. Na primeira, a falta de alimentos é brusca e completa e o quadro clinico é rápido e grave; na segunda , a falta de alimentos é lenta, progressiva e geralmente incompleta.
Também pode ser classificada como temporária ou periódica; é a fome que ocorre poucos dias e se repete de tempos em tempos, voluntariamente, como acontece nos casos de experimentação, terapia, jejum religioso, etç.
Segundo a extensão da falta de alimentos, distinguem-se dois tipos de fome: total e parcial. No primeiro, a supressão de alimentos é completa ( fome aguda); no segundo. É incompleta e pode ser mais prolongada.
Falck considerou a quantidade de alimentos e distinguiu dois grupos: casos de inanição com alimentos suficientes ( impossibilidade, patológica ou voluntária) e com falta de alimentos ( acidentes, etç.).
Rojas propõe uma classificação que considera a etiologia psicogenética: fome involuntária e fome imposta.
Conforme se pode verificar, existem vários tipos de fome, mas o enfoque especial é à chamada fome coletiva, considerada um dos piores sofrimentos impostos à humanidade nos diversos dramas de sua complexa vida social, quando a inanição grave ou falta afeta toda uma cidade, região ou país. A causa, de ordem geral, é um fator ambiental: a falta de alimentos por motivos naturais ( colheitas desastrosa ou terremoto, por exemplo) ou artificiais ( miséria de uma guerra, cerco de uma cidade ou bloqueio de um país, etç)
O estigma da fome encontra-se entre os primeiros registros autênticos da história. Sinais de sua ocorrência foram encontrados esculpidos em túmulo de granito, na Ilha de Sahal, no rio Nilo. Ao que tudo indica, esse entalhamento foi feito no período de Tcheser, aproximadamente 2000 anos antes de Abraão.
O velho testamento faz muitas referências à inanição e à fome. Na época de José, o desenvolvimento do celeiro tinha progredido tanto que seu controle era de imensa significação política sendo utilizado como instrumento para escravizar povos. Conta-se que, através do controle de grãos, os Faraós do Egito tornaram-se grandes proprietários e alugavam suas terras aos camponeses, os quais, daí em diante, ficavam inteiramente subordinados aos monarcas. Esse processo foi descrito por Flavius Josephus, um dos grandes historiadores de Roma antiga, e foi confirmado por egiptólogos modernos. O fato ocorreu 1500 a 2082 anos a. c. provavelmente no reinado de Apholis, no fim da décima sétima disnatia.
Estima-se que aproximadamente 47.237.000 seres humanos foram vitimados pela fome qua assolou diversos países entre 1669 e 1793, em conseqüência de fatores naturais e artificiais.
Katz afirma que muitas revoluções da história devida à fome e em todas as guerras os problemas alimentares em importância, seja entre os fatores que desencadeiam a guerra, seja entre os que pesam em seu final.
A história registra alguns caos de fome ocorridos na Antiguidade, como as decorrentes do trágico cerco de Jerusalém pelas tropas de Tito, no ano 70, e sob o domínio dos Ptolomeu, no Egito. O fenômeno também foi observado com freqüência na Idade Média, em diversos países .
Da Bíblia Sagrada extraímos os seguintes textos: “ Ora, a fome crescia todos os dias em toda a terra; e José abriu todos os celeiros, e vendia aos egípcios; porque também a eles oprimia a fome. E todas as províncias vinham ao Egito, para comprar de comer e procurar alivio ao mal da carestia.
“...o pão em todo o mundo e a fome oprimia toda a terra, principalmente o Egito e Canaã. E José recolheu destes países todo o dinheiro pela venda do trigo...”
A origem de Buenos Aires está vinculada a um surto de fome. Os espanhóis depois de uma derrota, se refugiaram na cidade e a escassez de víveres foi horrível. Três deles mataram e comeram um cavalo e foram condenados à morte por enforcamento. Seus cadáveres foram comidos até a cintura a noite, pelos companheiros famintos.
A Índia tem sido um país várias vezes castigados pelas epidemias de fome coletiva. A mortalidade tem sido espantosa e na fome de 1876 morreram 5,5 milhões de pessoas. Na fome que assolou Irlanda, de 1797 a 1803 e na de 1816 a 1818, 700.000 pessoas morreram.
De 1630 a 1637, na chamada “ Guerra dos Trinta Anos”, calcula-se que em Lorena morreram de fome e peste mais de 600.000 pessoas.
O homicídio por fome está vinculado ao chamado “ canibalismo” e “antropofagia “, por próprios de certas tribos selvagens.
Um dos primeiros relatos de canibalismo aparece no século IX a.c.
Há evidencias de alguns depósitos paleolíticos demonstrando o canibalismo ocasional. Herótodos , Strabo e outros referem-se a povos do Mar Cáspio que matavam as pessoas idosas e as comiam. Na idade Média, Marco Polo e outros atribuíram o canibalismo a tribos selvagens da Chinam Tibete, etç. O canibalismo simplesmente alimentar é encontrado na áfrica Ocidental, onde antigamente a carne humana era exposta à venda nos mercados públicos e algumas tribos vendiam os cadáveres dos parentes. A prática de comer os parentes mortos como mais respeitoso método de possuir lembrança do mesmo está combinada ao costume de matar os velhos e doentes.
O canibalismo é um fenômeno esporádico e excepcional entre os povos civilizados, mesmo nos períodos de fome extrema. Entretanto, na Irlanda, em 1316. Oito escoceses foram ingeridos como alimento. Em 1945, quando as forças aliadas de apoderaram de Belsen, houve canibalismo. Markowiski afirma que o canibalismo não era não era raro entre os prisioneiros de guerra russos e poloneses no campo de Brandenburg . Na Índia e na China, países assolados por fome extremas, existem poucos registros de canibalismo, fato atribuído talvez à crença religiosa básicas.
Na Rússia, cuja agricultura e indústria foram devastadas por guerra sangrenta e longa, em 1922 ocorreu um surto de fome extrema e houve prática de canibalismo. Na região do Volga, os adultos comiam as crianças mortas às centenas, as famílias comiam seus mortos e alguns chegavam a desenterrar cadáveres congelados para comê-los . O professor Kharkow demonstrou que 26 seres humanos foram mortos devorados por seus assassinos. Em 7 casos, a carne foi vendida nos mercados públicos. Em muitas áreas, os cemitérios tinham que ser vigiados para que os mortos não fossem exumados e devorados.
Colmet e Newmann escreveram que, em Lorena, a fome era tão grande que todas as imundícies eram devoradas e os homens, em último caso se entre devoravam. Os filhos devoravam os pais e vice versa; os viajantes não dormiam tranqüilos junto ao companheiro de viajem.
Na grande seca que assolou o Ceará (1877 1880) , Nordeste brasileiro , onde muitos morreram edemaciados devido à carência de proteínas, por caquexia, beribéri, pelagra e outras doenças, citam-se casos de antropofagia.

Fonte: Livro História DA Nutrição E DA Alimentação

2 comentários:

Ministério Pescar disse...

Prezada Marcela,
Parabéns pelo artigo.
A Bíblia relata um caso de canibalismo devido à fome, onde uma mãe come o seu próprio filho. Ver "Reina Fome em Samaria":2Reis 6:21-30.
Abraços,
Roberto Marques

donubran disse...

Bom dia, Marcela!

Eu estava dando uma olhada na ineternet para ver se achava o livro que você citou nesse post, mas não achei nada. Será que você poderia me dar algumas referências desse livro?
Pode postar sua resposta aqui mesmo, por favor.

Aguardo sua resposta!

Abraços,
Douglas Nunes.